Quando me virei à direita, acostumada que estava com o dogmatismo ideológico da esquerda, pensei que iria apenas trocar de ideologia.

Pensei que estava trocando alhos por bugalhos, saltaria de um hermetismo ideológico para outro, afinal é assim que a esquerda sempre caracterizou a direita, como “outra ideologia”.

Mesmo assim ainda me pareceu uma opção muito melhor e mais razoável do que a sandice socialista que eu havia sido condicionada a acreditar.

Qual não foi minha surpresa quando descobri aos poucos que não havia caixa ideológica nenhuma na qual eu teria que entrar.

 Eu estava livre.

E a liberdade me pareceu tão óbvia quando eu entendi o que era o conservadorismo político, que cheguei a pensar que um post sobre este assunto era desnecessário.

Mas, algumas discussões com pessoas no Brasil me motivaram a abordar o assunto.

Para quem mora em jaula o mundo é listrado.

No Brasil o assunto ainda é confuso e é difícil para “imigrante” da esquerda entender que não está comprando uma ideologia.

Primeiro temos que entender o que é ideologia.

Ideologia não é o mesmo que uma exposição filosófica.

 Ideologia é uma prescrição gnóstica que norteia a interpretação das ideias.

Ela carrega noções a priori que se imprimem aos fatos colorindo-os, esvaziando-os das informações que carregam.

Fatos se tornam meras corroborações a hipóteses pré-cozidas.

Todos os elementos da informação têm que se encaixar na lata que se chama ideologia.

A ideologia não se preocupa em ouvir a história, ou números.

Ela não se corrige e não se ajusta aos acontecimentos.

Ela não tem processo avaliador.

Pelo contrário, se dá ao luxo de descartar os fatos que não estão de acordo com a narrativa que cria, seleciona e classifica os pedaços de realidade para sejam lidos de acordo com sua cartilha.

A diferença principal entre filosofia e ideologia é que a ideologia é fechada e a filosofia ou cosmovisão é aberta.

A filosofia interage com outras ideias, dialoga, se avalia à partir dos fatos e à partir dos conceitos novos que absorve.

A ideologia é uma caixa fechada.

Tem respostas dogmáticas para todos os problemas humanos.

E as respostas são sempre as mesmas.

Por exemplo a análise de um problema social feita à esquerda, sempre morre no mesmo diagnóstico e na mesma pseudo-solução.

Diagnóstico: Oprimidos vs opressores.

Solução: Protesto contra os opressores.

E para aí em 99% dos casos.

E os protestos têm que ser contínuos, como as cobras da cabeça da Medusa.

Você corta uma nascem duas no lugar…Os protestos não existem para trazer soluções ou na intenção de resolver problemas.

Eles são um fim em si mesmos.

Eles existem para gerarem uma insatisfação constante com tudo.

Existem para desestruturar a ordem vigente e não substituí-la com nada.

Exemplos recentes são o Chile e agora os EUA.

A razão ideológica para isto, é que tudo o que não é o marxismo, tudo o que não seja o domínio total da ordem social política e econômica por uma oligarquia marxista, é um mero paliativo.

Não existem soluções fora da destruição de tudo e da implantação do novo sistema.

Como sempre vai haver empecilhos ao domínio total, mesmo que sejam externos, como no caso da União Soviética, a resposta nunca chega.

Isto dá aos marxistas a tarefa eterna de criticar o presente e perseguir o futuro utópico, e nunca serem criticados.

A esquerda dialoga com outras ideias? A resposta não.

Diálogo presume ouvir e respeitar o outro.

Dentro da ideologia socialista não se pode dialogar.

Qualquer proposta diferente, opinião contrária, é enquadrada como sendo advinda de uma “pseudoconsciência” ou pior, de má fé manipuladora.

Já vivi momentos na sala de aula, quando em um momento ou outro eu como uma latino-americana, mulher, de classe pobre (ou seja tenho todo o pedigree de vítima, “trans-sectional”), e com experiência de trabalho social entre os pobres, discordei das ideias marxistas lançadas em sala de aula como um dogma inviolável.

Não me esqueço da reação de um aluno branco, claramente membro da classe privilegiada que ele mesmo condena, rejeitar minha opinião me acusando de ser portadora de uma falsa-consciência, e, portanto, “opressora” dos que eu afirmava defender.

Os pobres alunos jovens aprenderam cedo a não dialogar.

Sua energia intelectual não é gasta em apreender o conceito proposto pelo outro para então discuti-lo, mas sim em achincalhar o proponente da ideia.

Qualquer coisa proposta fora da caixa ideológica tem que ser inevitavelmente descartada.

Você já ouviu um socialista perguntar: “mas tal política deu certo?” Não.

Esta não é uma pergunta que os interessa.

Não querem que nada dê certo.

Senão como se justificaria um governo totalitário? Só se justifica quando nada dá certo.

A “direita” tem ideologia? É só olhar para o panorama da nossa insipiente direita que você tem a resposta.

Quem não briga? Porque não formam uma “frente ideológica coesa”?  Porque tal coisa não é possível no universo político da direita.

 Este não é o alvo da direita, fazer a cabeça de pessoas para que pensem uniformemente.

A direita não é, em país nenhum, representada por um bloco hegemônico nem nunca vai ser, porque não é ideológica.

Para quem se preocupa com fatos, com soluções reais e números a dissensão, a divergência é uma necessidade não um problema.

Quando a oposição critica a “ala” ideológica do governo Bolsonaro, estão criticando na verdade aqueles que tem uma visão clara da ideologia que estão lutando contra.

Você quer ser um direitista decente? Comece a estudar, faça perguntas, não se conforme com resposta prontas, estude as fontes, compare fatos.

Não se conformar com resposta prontas vai te tornar um direitista.

Papagaiar ideias de outros não.